12.25.2010

...

Chantez comme une flute, que elle chante comme la mèr.

11.17.2010

Memória Presente

Em cada linha dessas está um suspiro, uma imagem, um instante aprisionado entre as letras da memória. Releio e está tudo lá, ou melhor, aqui. Uma vida que passou, que passa sempre, mas que posso voltar, quando quiser. É só escrever, escrever para tornar o segundo passado, agora.

11.15.2010

Esfinge

Eu digo: "Não consigo acreditar em você".
Ela sofre pois não fui o primeiro a lhe dizer isso.
O que ela pode fazer? Se olhá-la, de relance, como por inteiro, não restam lacunas. Ela é sólida esfinge, contínua. Mas se prestar atenção, é uma miragem. Tente soprar. Uma película muito frágil se desmancha para revelar outra impressão cruel. É só olhar mais fixamente. Atenha-se aos detalhes. Há rachaduras e frestas de realidade espalhadas por toda ela, por toda a sua totalidade inteiriça, maciça. O todo é instável e divisível. Por exemplo, ela anoitece a cada dia. Além disso, troca as folhas de tempos em tempos, sem nunca permitir um respiro de primavera. Tudo feito com discrição. Permanece no ciclo de uma única  estação gelada. Veja: algo nela é sutilmente partido. Falta sempre alguma coisa que daria a ela um encanto genuíno, natural, semovente. Mas não posso acreditar. Há tempos que algo se fechou. Como uma cobra enrosca-se em si mesma, em movimentos atritantes de contorção, remoendo consigo as dúvidas e angústias alheias. Nem sabe mais porque cria os próprios labirintos. Está ferida. Ela perde-se. Começa a endurecer e a congelar. Constrói fortalezas para se defender de tudo o que há.  Protege como uma leoa o único néctar que a mantém viva. Está lá, bem guardado. Nunca o vi, só ouvi contar. Nem sei o que é exatamente. Ela não diz nada. Estou proibido de entrar lá. Mesmo decifrando o segredo, nunca chegaria aos recônditos de sua verdadeira essência. Tento habitar o seu ninho estéril, ao menos, o seu reino de mentira, na ilusão de que algo vá derreter os castelos de gelo que se formaram dentro dos olhos dela. Me sinto fora de tudo o que é legítimo nesta monstruosa criatura, e mesmo assim quero caber dentro desta mulher. Insisto em beber o néctar, mesmo que para isso tenha que ser devorado. Por quanto mais?

11.06.2010

Como se fosse ontem...

Estou cada vez mais longe, e a lembrança me faz cada vez mais perto.
Se a hora avança, sou próxima.
Mais uma primavera, estou ao seu lado.
É como se fosse ontem, o que já faz tempo.
Por quanto mais?

10.29.2010

A Casa do Governador e Inspirações Deleuzianas e Renaisianas


(Foto: Filme O Ano Passado em Marienbad / Direção: Alain Resnais)
Este ano visitei a nova casa do Governador do estado de Minas Gerais. Fui à trabalho com a equipe da TV Câmara fazer uma reportagem na Cidade Administrativa. Mesmo com o agendamento prévio da visita foram solicitados na entrada diversos documentos, preenchida uma ficha de cadastro e só então autorizado o acesso. Ficamos rendidos durante quase uma hora debaixo de um sol escaldante para atender às exigências da burocracia.

Subimos de elevador, se não me falha a memória, até o quarto andar da comunicação. Ao entrar na “fortaleza” a mudança de temperatura foi nítida com o funcionamento do ar condicionado. O chão era coberto por tapetes felpudos, de um tom amarelo envelhecido, pouco chamativo. E as paredes de um branco infinito e asséptico. Nas mesas e cadeiras predominava o cinza. Nossa equipe foi recebida por duas atendentes. O ar estava seco e, mesmo com a sensação de que tudo por ali se encontrava habitado, aquela estrutura grandiosa por fora e por dentro era de um silêncio, uma organização, um vazio e um equilíbrio insuportáveis. A primeira pergunta que fiz para uma das simpáticas mocinhas foi: “Onde posso tomar água?”. Uma delas que estampava desde a nossa entrada um sorriso tenso disse: “Você pode seguir até o final deste corredor à direita, ou se preferir, deste outro à esquerda. Acompanhei o gestual e fala, sincronizados da moça, e notei que em nenhum dos dois lados indicados eu conseguia avistar o fim do corredor e muito menos o bebedouro. Meu olhar se perdeu na sucessão infinita de portas e paredes. Ela percebeu a minha aflição e esboçou um novo sorriso, dessa vez mais flexível. De - repente, de uma portinha escondida - um atalho quase imperceptível em meio aquele palácio concreto e incontestável - a moça saiu com três copos d’água frescos.

Enquanto bebíamos sedentos e esperávamos o assessor de imprensa, começamos a passear distraídos pelos longos corredores. A cada sala, mesa, computador, fomos aos poucos desvendando os funcionários da instituição. Chamou a minha atenção tanta polidez e comedimento em simplesmente estarem ali. Pareciam estátuas vivas, pessoas petrificadas, quase inertes, que se movimentavam o mínimo necessário para não passarem como que ausentes. Cada um no seu espaço milimetricamente planejado, instalados em cadeiras confortáveis com design próprio para a situação de trabalho. Mesmo assim, os “homens e mulheres de pedra” não pareciam confortáveis em seus assentos. Naquela tarde eu não havia encontrado “frestas” e “ventilação”, nem no exterior e nem no interior da obra do modernista Oscar Niemeyer.

Nas andanças por esse labirinto de objetos e “homens-estátua” fui me lembrando de “O Ano Passado em Marienbad”, filme do cineasta francês Alain Resnais, em parceria com um roteirista do Nouveau Roman (Novo Romance) , Robbe-Grillet. O filme começa exatamente com a descrição arquitetural de um palácio barroco que não se localiza em período e lugar discerníveis, apesar do nome do filme localizá-lo em tempo e espaço. No desenrolar percebemos que o ano passado pode ter ocorrido em qualquer tempo, inclusive no presente e no futuro, e Marienbad pode ser outro lugar, como Frederiksbad. Aos poucos os travellings precisos e ousados que são marca da direção renaisiana percorrem durante o prólogo um suntuoso palácio pleno de detalhes da ornamentação barroca e nos revelam o espaço por meio de um voice-over: “Salas silenciosas, nas quais os passos deste que avança são absorvidos por tapetes tão pesados, grossos que nenhum barulho de passo chega a sua própria orelha. Como se a própria orelha estivesse muito distante, muito distante do chão, do tapete, muito distante deste cenário pesado e vazio (...) labirinto de pedra, no qual eu avançava, uma vez mais, como a seu encontro”.

Portanto, o mundo físico dos objetos que se sucedem pelos corredores labirínticos da Cidade Administrativa da mesma forma estão presentes no palácio de “O Ano Passado em Marienbad”. É esse mundo físico nas duas ocasiões que vai suscitar a evocação da memória. Como sugere o roteirista Robbe-Grillet, “a memória é egocêntrica e necessita dos objetos (mundo físico) para evoluir. Ela atinge conceitos por meio de objetos e não pela consciência, que é enganosa. Memória e imaginação são suspeitas, pois são naturalmente ligadas a um idealismo (ou idealizações). Só o objeto pode ser a fonte da realidade. A realidade para ele (Robbe-Grillet) está no mundo físico”.

Na Cidade Administrativa, quando percorremos os caminhos, a memória atua com liberdade de ação e traz a sensação de reconstituição verdadeira do ambiente da instituição pública. Os objetos que ali estão permanecem, não serão mudados de lugar necessariamente. Pouco da estrutura é alterada e os mecanismos da lembrança não são ludibriados. O filósofo Deleuze vai além do conceito proposto por Grillet e apresenta a memória não somente como um lugar de referência, porém como uma estrutura pontual que pertence ao Plano da Organização. Ele introduz este conceito no livro “Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia”.

O Plano da Organização é para Deleuze um lugar de transcendência, evolução, analogia, seja porque assinala um termo eminente de um desenvolvimento, seja porque estabelece as relações proporcionais de estrutura e de encadeamento. Sendo assim, a memória é um mecanismo da mente para registrar, aprisionar para o não esquecimento. Ao caminhar contamos os objetos para criarmos referência, determinarmos territórios para não nos perdermos. Sobre esse aspecto, Ítalo Calvino nos apresenta no livro As Cidades Invisíveis , uma cidade memória chamada Zora, em que seus cidadãos só conseguem se orientar a partir das relações de afinidade e contraste entre objetos e paisagens evocados pela memória.

O mesmo se passa no percurso no interior da Cidade Administrativa. É possível contar por quantas salas e pessoas passamos, para em seguida, nos recônditos da memória, nos lembrarmos. Porém, a sensação ao assistir “O Ano Passado em Marienbad” é outra. No filme, um estranho (Giorgio Albertazzi) tenta convencer uma mulher casada (Delphine Seirig) a fugir com ele. O homem diz conhecê-la. Fala que foram amantes. Entretanto, parece difícil fazê-la lembrar de que tiveram um caso (ou que não tiveram) no ano passado, em Marienbad. Alain Resnais opta por contar esta história com uma narrativa que valoriza o cenário, o figurino e os objetos. Os próprios protagonistas estão dispostos no espaço como “coisas”, o que o roteirista Robbe-Grillet chamou de “chosisme”. Os personagens não possuem nome, se locomovem lentamente, com os corpos duros e pesados. Repentinamente param como se estivessem congelados no tempo, como elementos de extensão e composição da arquitetura do espaço. O que instiga Resnais e Grillet no início dos anos 60 é a experimentação de uma linguagem nova que desconstrói todos os paradigmas do cinema da “imagem-ação”, já em franca decadência na época.

Sendo assim, esses deslocamentos dos objetos propostos por Resnais e Grillet que enganam os artifícios de organização da memória, por várias vezes, situam “O Ano Passado em Marienbad” em um plano diferente do plano organizacional, do qual se vestem melhor os mecanismos de estruturação física da Cidade Administrativa. No filme, Alain Resnais e Robert Grillet acessam outro plano que Deleuze chama de Consistência. Este plano também conhecido como Plano de Composição é geométrico e não remete mais a um desenho mental, mas a um desenho abstrato.

Sendo assim, os objetos, único mecanismo que poderia nos dar dicas e acompanhar os acontecimentos em O Ano Passado em Marienbad flutuam, se deslocam, são impermanentes. Eles a cada instante da narrativa são desterritorializados. Dentro do palácio barroco há espelhos que criam dimensões, dentro de dimensões e somos levados a nos perder sempre em novas camadas de objeto, o que nos traz a ideia do cinema dentro do cinema, a narrativa dentro da narrativa. Tudo está em abismo, tudo cai em falso. A partir destes artifícios o cineasta apresenta no filme a discussão de duas principais questões do cinema novo moderno: a crise da narrativa e crise da verdade.

Para esclarecer a respeito da narrativa, Deleuze analisa no livro “A Imagem-Tempo” as diferenças entre o cinema da imagem em movimento e o cinema da imagem-tempo. Sobre o primeiro, o filósofo explica que as imagens promovem no espectador estímulos sensório-motores e criam a sensação de desenvolvimento, com princípio, meio e fim. Algo que resulta aparentemente orgânico, pois não há “atropelos” na condução linear. No segundo, a narrativa ganha acidentes e é definida por velocidades e lentidões. O movimento não é contínuo, mas estruturado em blocos visuais, óticos e sonoros, ora coincidentes, ora em descompasso. Esta diferença basicamente diz respeito à crise na narrativa. Com a chegada da modernidade e do novo contexto de transformações políticas e sociais não cabe mais no mundo a estrutura clássica do romance burguês que influenciou o cinema até as primeiras décadas do século XX.

Esta nova forma de narrar proposta em “O Ano Passado em Marienbad”, que acompanha o movimento de toda a geração de cineastas da Nouvelle Vague, na França do início dos anos 60, questiona também a aspiração da verdade no cinema, o que Deleuze vai chamar de Potência do Falso

Em O Ano passado em Marienbad o conceito de potência do falso permeia todo o filme. O narrador diz conhecer uma mulher que nega o fato. Neste instante ele é visto como um “falso pretendente”. Em outro bloco, temos dúvidas se ela mente. Além disso, o narrador ao tentar organizar fracassa. Ao evocar a memória e os fatos, inclusive objetos como uma fotografia que prova a existência do encontro do suposto casal, Resnais nos confunde no momento seguinte com a sugestão de que o homem nunca poderia tê-la conhecido, já que no passado ela estava morta.

Além disso, a cada seqüência do filme somos surpreendidos pela protagonista com um novo figurino, que não marca estilo de época e acaba por cair na atemporalidade. Esses e outros elementos impedem que a narrativa se estabeleça em seqüência cronológica e ordenada. Eles suscitam um conceito ampliado de narrativa, que é construída por blocos de sensação. Não há como construir uma história. Os objetos não sempre reterritorializados. O espectador está hipnotizado e preso no labirinto renaisiano. Como diria Santo Agostinho “existe um presente do futuro, um presente do presente e um presente do passado”. Cada imagem em “O Ano Passado em Marienbad” é presentificada, única, auto-referente.

Não sabemos o que de fato é verdadeiro e o que não é no filme de Alain Resnais e Robert Grillet. E isso talvez não importe já que na arte o falso pode ser visto como potência criadora. Admitir, porém, deslizes, fracassos e potências do falso numa instância de poder é que poderia soar provavelmente como algo inaceitável pela própria natureza da instituição. Para funcionar como tal ela precisa de credibilidade e, portanto, norteia-se, sobretudo, pelos princípios da exatidão, velocidade, precisão. Não há linhas de fuga. A Instituição pública transita em outra planitude. Ela é verídica, incontestável e habita o plano organizacional da visão dogmática. Caso contrário, não carregaria o nome Cidade Administrativa.

E assim essas camadas, esse planos da estrutura e consistência se diferenciam e coexistem. Segundo Deleuze “O plano de organização não pára de trabalhar sobre o plano de consistência, tentando sempre tapar as linhas de fuga, parar ou interromper os movimentos de desterritorialização, lastreá-los, reestratificá-los, reconstituir formas e sujeitos em profundidade. Inversamente o plano de consistência não para de se extrair do plano de organização , de levar partículas a fugirem para fora dos estratos de embaralhar as formas a golpe de velocidade ou lentidão, de quebrar as funções à força de agenciamentos, de microagenciamentos. (DELEUZE, p.60)



7.04.2010

Um constante devir...

Na casa da atriz até agora cabem tantos sonhos e desilusões. Tantos sentimentos, desejos. Tanta inquietação desta mulher que chega aos trinta anos. Chego potente, com sede de realização. Em breve nesta morada que faço e refaço a todo momento quase já não me caberá mais. Começo a transbordar imensa por todos os cantos.  Estou no plano deleuziano da consistência. Eu ganho espaço. Eu me multiplico e sigo rizomando em mutações, devires e direções que aos poucos me devolvem os sentidos e as possibilidades da vida. Vejo agora uma nova forma de habitar o mundo. Eu me reencontro em leituras, me permito novos prazeres, novos desafios. De fato está surgindo um novo alguém dentro de mim. Eu deixo que venha esta nova mulher nascendo, criando raízes, renovando, abrindo frestas, ventilando as articulações. Esta mulher quer dançar até o fim de seus dias e se chegar aos quarenta e os desejos forem outros, a estrutura de arejamento permite que brotem sempre novas e tantas outras possibilidades. Porque a cada dia sou reivenção de mim mesma.

"Pra Dizer Adeus"

Inicio o fechamento de um ciclo. Outro vem por aí. Não tenho mais medo. Chego aos trinta em breve com a sensação de que aparentemente nada mudou, pois sigo forte. É que as mudanças são mais profundas e quase invisíveis. Só para quem está realmente atento pode percebê-las. Chego em Paris e dividirei pela primeira vez perto e com você, os últimos minutos do fim. Vamos nos despedir juntos do amor vivendo por um mês tudo aquilo que talvez ambos tenham querido em momentos diferentes viver para sempre. Eu quero que seja leve e doce a despedida. Então, como a canção termina, o amor termina: "...eu só sei dizer, 'vem', vem nem que seja só pra dizer Adeus".

6.14.2010

Uma Desilusão

Antes não tinha nada, mas levava na mala robusta, Paris e uma ilusão de amor. Acontece que no percurso a mala se tornou mais leve. Foi algo que deixei para trás. Só me restou não esquecer de guardar com afinco o sonho da charmosa Paris. O que houve que mesmo sem você insisto em seguir para lá? É que a ilusão do amor ficou pesada para carregar. Vislumbro assim tantas outras mais leves e mais adequadas para meu atual tamanho. Sigo então assim, de trouxa leve, coração despretensioso e distraído, inquieta e ávida por abrir frestas.

Frestas...

Tenho me esforçado para abrir meus espaços. Não há outra possibilidade, quando as possibilidades são tantas e incertas. Seguir abrindo frestas: labuta cotidiana interminável, não?

6.08.2010

Suficientemente Amoral

Não confunda as coisas. Minhas questões passam por ética. Nunca pela moral. Sobre a segunda, essa sim veste melhor no meu pai. Da primeira já me enchi para falar a verdade. Fosse eu amoral o suficiente para corresponder às vontades da alma e contrariar as expectativas da sociedade.

6.02.2010

5.24.2010

É que te amo...

...é que te amo todos os dias em que há sol e sinto sua falta nos dias nublados. A recíproca é verdadeira, sempre, mesmo que haja ventos esporádicos ou uma chuva passageira. Como aqui não neva, o coração segue aquecido para não sei mais quantas intempéries. Não sei, sabe? É que te amo...

5.17.2010

Cinza

É que naqueles dias chuvosos de dezembro que passei dentro de casa decidida de que seria o melhor a fazer para me colocar à espera, que de-repente tomei um aspecto verde. Um verde descorado, que aos poucos assumia uma vaga e despretensiosa impressão de agora parecer mais cinza do que nunca. E não há cor mais sem graça! Pois bem, cinza! Cinza vai com tudo e não é nada. Só é algo que se torna menos nada, perto de tudo. Olhava para dentro de mim e ganhava inúmeras e abomináveis gradações acinzentadas. Eu vivia sentada numa cadeira cinza-claro que havia sido de meu pai, um homem cinza-aço. Mal ousava abrir a janela. A luz do dia poderia quebrar o pacto das cinzas. Aos poucos eu criava tímidas raízes no assento que logo viriam a se tornar profundas e opacas, de uma monstruosa e protuberante "cinzentude". Eu estava presa àquela casa, àquela cadeira, à minha sentença. Estava presa a uma ligeira sensação cinzenta do que foi você, do que fomos nós. Um dia ventou forte. Estava tão envolvida e enforcada em meus propósitos "gris" que não consegui me erguer da cadeira a ponto de impedir que a janela se abrisse. E foi tão veloz que mal pude cerrar os olhos. Uma luz atravessou e veio aquecer meus pés. Algo estranho se passava. Foi de-repente que meus pés coloridos e despertos se movimentaram senhores de sua própria vontade. Não ousei desdenhá-los. Eles queriam andar e muito! Para todos os lugares! Só voltaríamos, eu e meus pés, quando após um pequeno descanso cinza, mas necessário, nos entregássemos a um novo e inesperado passeio.    

4.15.2010

a FORMA de nada dizer!

Escrevendo por nada, só pelo singelo deleite de nada dizer. Apanho pensamentos instantâneos. Capturo cada um como se fosse o único e pronto! Lá se vai uma frase que segue pelo simples fato de cumprir uma estrutura e chegar ao fim! Mas se eu não quiser que acabe, logo recomeço, e se por algum motivo desisto no me...

4.10.2010

1999=10


"De Terno tudo fica mais fácil!"



Cena: 1999=10

Direção: Dudude Herrmann

Elenco: Beatriz França, José Wahshington, Miller Machado, Patrícia Siqueira, Vinícius Reinald.
Matéria: Jornal O Tempo
http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/IdEdicao=1613&IdCanal=4&IdSubCanal=&IdNoticia=137161&IdTipoNoticia=1

Matéria: Site Guia Entrada Franca
http://www.guiaentradafranca.com.br/agendaG.php?idUrl=6042

3.22.2010

Como guarda-chuvas em dias de sol!


Deixo perder de vista os desejos.
Sigo despretensiosa...como guarda-chuvas em dias de sol!
Novamente estou rodeada de borboletas.
Agora de uma única espécie.
É sua presença que veio,
que foi, mas que ficou...

3.03.2010

A dama que voa para longe!

No peso e contrapeso
No tempo e contratempo
Vamos juntos girando...
Agora que sou a leve dama que baila,
Pesa em você toda a culpa do mundo

No peso e contrapeso
No tempo e contratempo
Vamos, equilibristas de nós mesmos!
Equilibramos o peso de dançar a dois novamente!

No peso e contrapeso da vida
No senso e contrasenso da dúvida
No tempo e contratempo da dança.
Pisou por ciúme nos pés da dama.

Os olhos do ciúme pousaram pesados.
E foi o tempo dela medrosa e dotada de uma sabedoria espontânea abrir as asas!

No peso e contratempo da posse
No tempo e contrapeso do desespero
Encolheu-se ele de tanto desejo, que só lhe restou contemplar o vôo da dama, tão leve, como nunca imaginara.

É teu desejo tardio e desajeitado, senhor, que me faz cada vez mais ser a dama que voa para longe...

3.02.2010

Fase

Um turbilhão de coisas inomináveis!

2.18.2010

Mais uma batalha

Quando pensou falou. Como fogo em estágio último de expansão, como água quem nem espera para entrar em ebulição. São instantes para evitar a explosão ou deixar que ela se espalhe. Escolhe sempre a força e a intolerância realçada com as propriedades do metal. Não escuta, não exerga, não vê. Acoado é um bicho que reage por instinto sem conter e derrama tudo. Não guarda nada. Depois se encolhe, cansado, triste. Perdeu mais uma batalha!

2.09.2010

Impasse

Nas ciladas que a vida traz!
A atriz encheu-se de borboletas
E pôs-se alheia a sonhar...

Véspera de Yemanjá!

Sob à luz cheia da lua, elas cantam e dançam para a mãe Yemanjá. É hora de circular!
É lua cheia, Yemanjá, rainha do mar!
Minha madrinha, deusa do milho, traz alimento, semeia disciplina.
Sou mulher em expansão!

2.01.2010

Ofício

Eu me preencho de sonhos incompletos, de fragmentos do cotidiano, de falas, de olhares, de instantes, do subjetivo para a criação. O homem e sua fonte riquíssima e inesgotável de contradições. Meu ofício prescinde vocação para imaginar, para ser incoerente, para me apaixonar pela humanidade. Se for necessária a visão absoluta, cheia de compartimentos e repartições, a criação se esgota. Se não for possível multiplicar as facetas, as perspectivas, as possibilidades, não há sentido em produzir arte, não há graça em viver a vida. Que mania de achar que há regras para tudo, que não há deslocamentos, que tudo tem um devido lugar. O que é devido? Pare de se desculpar e simplesmente aprecie, observe, deixe o caos se instalar docemente. Permita que o sublime tome as proporções do grotesco. Não há controle na criação, não há controle na vida. Há condução. Persigo a imperfeição, persigo a humanidade.

1.29.2010

Pelos 50 anos de Hiroshima no Brasil

Um filme sobre homens comuns, que não venceram nos campos de batalha e que carregam toda a culpa e a memória do mundo. A esses homens foi destinado o eterno retorno ao passado. Um filme para que as gerações futuras não se esqueçam dos horrores e catástrofes desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial. Depois de Cidadão Kane de Orson Welles, 1959 é um ano de revolução na linguagem cinematográfica mundial com a estréia de Hiroshima Mon Amour de Alain Resnais. Um ano depois o longa chegaria às salas de cinema no Brasil e seria aclamado pela crítica.

Além desse legado, outra contribuição do filme para o avanço do cinema está na capacidade de Resnais colocar em diálogo, com tanta precisão e estilo, forma e conteúdo. Suas inovações estéticas, como os movimentos de câmera arrojados e as montagens inesperadas, suscitam perguntas, promovem reflexões.

Porém, a verdadeira revolução da arte renaisiana que se consolida na passagem do cineasta dos documentários à ficção, e que irá se perpetuar por toda a sua obra vai além. A inventividade de Resnais reside em um momento anterior à sua criação no cinema. A habilidade do artista está em escutar os anseios e aspirações de seu tempo, e simultaneamente, em parecer que está sempre à frente dele, como um artista solitário, “sem lugar”. O objetivo de Resnais é se posicionar numa atitude de quem provoca e incita mudanças.

“Meu objetivo é por o espectador num estado tal que oito dias depois, ou mesmo seis meses ou ainda um ano depois, ao se ver colocado diante de um problema, o filme o impeça de trapacear e o obrigue a reagir livremente. Preocupo-me em me dirigir ao espectador em estado crítico. Para conseguir isso, tenho de fazer um cinema que não seja natural”. (PINGAUD, SAMSOM, 1969, P.170)

Infelizmente, na sociedade contemporânea há cada vez menos espaço para artistas como ele, que acreditam na arte como um lugar de reflexão. Eles acabam à margem do sistema. Mas não são eliminados, pois esse mesmo sistema precisa de pessoas como Resnais para se renovar.

E assim, este senhor inquieto, com quase 90 anos de idade, segue em frente reinventando a realidade e experimentando com mais liberdade o imaginário e o cinema do século XXI, sem jamais se esquecer de revisitar o passado e a história.

1.24.2010

A mulher que espera



Mal se despediu e mais uma vez se pôs a esperar. Espera incondicional. Há capricho na espera. Solidão na espera. Ela espera sem saber o que a espera. Há amor e caos nos olhos da mulher que espera.

Reality Show

Para onde estamos seguindo? Será que ninguém se dá conta? Tem alguém conscientemente acordado em frente ao televisor? Em tempos de reality show, todos parecem dormir. Acordem! Onde estão vocês? Onde está o mundo? Olhe para o lado! Provoque o outro, provoque a si mesmo!

Procuro um sabor distinto...


Desejo provar um sabor distinto, desses que não se prova em qualquer feira. Desses sabores escassos, de sensação indescritível, que só se encontra na vida por acaso, sorte. Um sabor refinado, que só se experimenta uma vez. Nem todos almejam prová-lo! Seja por desconhecerem a sua existência ou mesmo pelo desagradável dissabor de não conseguirem viver sem ele, depois de encantados. Fato é que muitos passam em branco, sem nunca terem desfrutado esse prazer. Pelo menos é o que contam os poucos que dele provaram. Dizem ainda, esses sortudos, que não há regra; que se reconhece o sabor em qualquer idade, em qualquer tempo, e com os olhos revirados acrescentam ser sublime esse momento!

Às vezes me pergunto se esses sabores realmente existem e não são uma invenção sedutora do imaginário alheio. Bem, sempre altruísta, prefiro acreditar que a vida está cheia desses sabores sutis e raros. E que cada um tem o seu em algum lugar guardado. Mesmo sem conhecer o meu, sei que ainda não o encontrei. E se algum dia de sobressalto isso acontecer, saberei exatamente que degusto um sabor peculiar. Saberei que o achei, e que jamais, jamais vou esquecê-lo!

1.21.2010

Andarilha

Andou como se não existisse tempo.
Andou num estado de quase sem rumo, por inércia.
A cada passo deixava um pensamento e seguia leve, cada vez mais leve, levíssima e livre...

"Fragilidade: teu nome é mulher"


A mulher sentada no sofá tem os joelhos descobertos.
Quieta, silenciosa, doce...
O olhar vago, insinuante, lhe dá um ar indestrutível.

Escorre suave uma lágrima. O sal corrompe e corrói docemente todas as estruturas, todas as articulações, todas as possibilidades da vida ter um sabor diferente.

A mulher acorda e por mais que ajeite os cabelos permanece com eles impecavelmente despenteados - não por moda. Ela cobre os seios para que não pareça ser quem realmente é. E trabalha, trabalha, trabalha até o fim dos seus dias, administrando a vida sem destino certo, sem saída. Está acoada como um bicho e terrívelmente frágil diante de sua própria fortaleza.

1.10.2010

Desencanto e Silêncio

O silêncio rompe as barreiras da indiferença que se instala grave. Curioso: não sinto nada. Só o desencantamento do mundo. Foi assim: tanto para nada.

Em crise

O problema não é a arte, o teatro. Com eles vai tudo bem. A questão é estar disposto a dedicar-se tanto tempo àquilo que não é valor para o sistema. O artista, tão supérfluo, tão pobrinho, tão apaixonado, tão cheio de ilusões segue o seu curso e alimenta-se de algo inexplicável, que só quem verdadeiramente conhece o ofício entende a devoção.

Em processo


De uma inquieta inquietude ela reinventa a própria inquietação.

Do sabor ocioso do ócio recria os meandros da criação.

E a atriz faz do dia tedioso, movimento e inspiração!

1.03.2010

Movimento é o que desejo!

Movimento é o que desejo! Movimento às margens do Rio. Se nele não posso estar, que a vida não deixe de correr porque pertenço às margens.

Solitária e Tranquila à Margem

Sou à margem mesmo. E daí? Quem não é? Muitos como eu se avolumam às margens e viram cada vez mais maiorias solitárias. Para estar no sistema, rio que avança impetuoso, são tantas as regras, que se torna difícil e injusto cumpri-las. Aceito minha posição marginal! Cansei de achar que todos precisam amar o pouco que tenho a oferecer. O imaginário não pertence ao sistema. Doce ilusão! Sem ilusões e sem tristeza, me despeço de uma fase que se encerra. Em crise, me adentro em outra. Humilde e consciente aprecio o rio correr. Estou em movimento: eu me transformo para algo que me aguarda e desconheço. Foi necessário percorrer tanto caminho para reconhecer que o ideal não passa do ideal.